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CAPÍTULO 1
OLÍVIA MILLER
TEMPO ATUAL
Com o caderno de contas aberto no meu colo, encaro as páginas manchadas de marcas secas de choro, sentindo o desespero me engolir mais uma vez. Meus dedos tremem ao percorrer as linhas, pois cada número ali parece ser, na verdade, mais um tijolo erguido na parede que está me sufocando aos poucos.
— Puta merda, isso aqui já saiu do controle.
Aluguel: US$ 1.000 — Vence em 3 dias.
Gás: US$ 87 — Atrasado há 15 dias.
Cartão de crédito: US$ 2.347 — Vencido há 30 dias.
Fecho o caderno com força antes mesmo de somar o rombo total do mês, enquanto uma ânsia de pânico sobe direto para a minha garganta. A merda é que tenho apenas 19 anos, mas atualmente virei mãe da minha mãe, que mais parece uma adolescente que fica combinando looks na frente do espelho sem se preocupar com o amanhã; e isso está fazendo com que o meu corpo inteiro pareça carregar o cansaço de um século sobre as costas, sustentando um peso que nunca pedi para suportar.
— Deus, o que eu faço agora?
Fico em silêncio por alguns minutos, encarando o teto à espera de um milagre ou de qualquer sinal. Mas nada vem e então, ainda em busca de uma resposta, pego meu celular.
Mas para quem eu ligo? Quem no mundo pode me estender a mão sem que eu passe vergonha por pedir um empréstimo?
Nenhum rosto surge na minha mente, com exceção de um: meu pai, Robert Miller. Respiro fundo, sentindo o peito apertado, e disco o número. Ele, como sempre, não demora a responder:
— Livia? Aconteceu alguma coisa, princesa?
— P-pai... — Minha voz falha. — Eu preciso de ajuda.
Ele solta um suspiro pesado do outro lado da linha e isso já me deixa ainda mais abatida, pois eu sei que nunca é um bom sinal.
— O que foi desta vez, filha?
— O aluguel vence em três dias... — Engulo em seco, lutando contra o nó que trava minha garganta. — E a conta do gás já está atrasada há mais de duas semanas. Se a gente não pagar agora, vão cortar. — Nem tenho coragem de mencionar a fatura estourada do cartão de crédito. A maior parte do valor foi torrada pela minha mãe, que há dois meses cismou em andar impecável, caçando liquidações nos outlets mais caros da cidade como se nossa conta bancária não estivesse no vermelho. — E-eu realmente preciso de ajuda, pai.
O silêncio do outro lado se estende.
— Minha menina, eu... — Ele se cala por um instante, e quase consigo visualizá-lo passando a mão pelos cabelos grisalhos, repetindo aquele tique nervoso conhecido. — Eu sinto muito. Lamento de verdade que você esteja passando por isso.
— Eu sei que é pedir demais, mas se você puder...
— Não é isso, Livia. É que... — Ouço outro suspiro arrastado. — Eu também estou afundado até o pescoço. Metade do meu salário vai direto para a sua mãe todo mês; você conhece o acordo que eu fiz questão de fazer para o seu bem.
— Eu sei, mas não sobrou nada para nos ajudar? — insisto, forçando firmeza na voz para não quebrar.
— A outra metade... — Ele hesita. Ouço o barulho abafado do fone sendo protegido contra o peito, os passos curtos de quem tenta se afastar de testemunhas. — Bem, recomecei a vida com a Cassandra. Enfim, as despesas aqui em casa estão apertadas e...
— Não precisa explicar. — Consigo ouvir perfeitamente o som da televisão ligada ao fundo e uma voz feminina. Eles estão juntos neste exato momento, talvez assistindo a um filme. — Eu entendo — minto, enquanto uma lágrima escorre pela minha bochecha e pinga direto na capa do caderno. — É que eu não sei mais o que fazer, pai. Não tenho mais a quem recorrer.
— Me dá algumas horas — ele pede. — Vou tentar arrumar alguma coisa, prometo. Talvez eu consiga pedir um adiantamento no trabalho.
— Obrigada.
— Eu te amo muito, Livia. E sinto muito por tudo, por ter saído de casa, por não estar presente aí com você. Eu juro que fiz de tudo para ficar e não quero ficar aqui falando da sua mãe, mas foi difícil, muito difícil.
Fecho os olhos por um instante.
— Também te amo. Você sempre vai ser meu pai. Fique tranquilo, tá?
— E você vai ser sempre a minha princesinha.
Em seguida, a linha fica muda e eu deixo meu corpo desabar de lado no sofá, até que a tela do celular vibra com as notificações do grupo “Falta uma”.
Blanca: Meninas, ainda estou arrumando o auditório para o seminário infantil do Templo. As flores de papel que inventei de fazer dão muito mais trabalho do que parecem. Estou esgotada, mas vai ficar tão lindo!
Ps. Como vocês estão?
***
Tiana: E eu aqui, jogando currículo para todo lado como se fosse chuva de papel picado. Não desisti de conseguir me matricular na universidade, mesmo os meus pais me dizendo que é loucura. Então, preciso trabalhar.
***
Meus dedos hesitam sobre o teclado antes de digitar:
***
Olivia: Aqui as coisas estão complicadas. Minha mãe segue pensando no que vestir e em fazer fotos para as redes sociais, mas acho que estou chegando no meu limite. As contas não param de chegar e não vejo nenhuma saída. E sobre a universidade, acho que já desisti.
***
A resposta de Blanca salta na tela em segundos:
***
Blanca: Eu já falei: posso ajudar com o que você precisar, Liv. Tenho um dinheiro no banco... E não parei de procurar um trabalho decente para vocês com o pessoal do Templo. Inclusive, fiquei sabendo que o Sr. Johnson, um membro afortunado, está precisando de duas assistentes no escritório dele. Vou conversar com ele amanhã. Confiem, vai dar certo!
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Tiana: O foda é que o "certo" sempre escolhe o caminho mais longo para algumas de nós. Parece que Liv e eu estamos marcadas pelo selo da derrota.
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Olivia: Obrigada, amiga. Juro que se a corda apertar demais, eu aceito a sua ajuda. Prometo.
***
Mudo de assunto logo em seguida para não ficar ainda mais constrangida.
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Olivia: O que será que a Chloe diria para a gente agora?
***
Blanca: Ela estaria louca com a possibilidade de você e a Tiana ficarem fora da universidade. Ps. Minha mãe jurou de pés juntos que viu o pai dela passando em um noticiário, do outro lado da rua em um corte do ao vivo. Mas quando fui sentar na frente da TV, a reportagem já tinha acabado. Também procurei online e não encontrei nada.
***
Tiana: No momento, só torço para que ela e o Douglas se reencontrem em algum momento. Esses dias até sonhei que ela estava grávida de uma menina.
***
Blanca: Eu ia amar ser tia. Imagina a perfeição de uma filha da Chloe com o Douglas?
***
Olivia: Eu também ia amar.