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PRÓLOGO
UM ANO ATRÁS – HEAVEN CITY
OLIVIA MILLER
Um cantor qualquer desafinado tenta animar a noite na casa noturna, mas a maldita música é incapaz de abafar o vazio dentro do meu peito. Tudo isso porque faz exatamente uma semana que Chloe, uma das minhas melhores amigas, sumiu do mapa sem deixar um único rastro. Sem sequer uma despedida decente.
Enquanto isso, Tiana, Blanca e eu estamos escoradas no balcão do bar. Tiana, coitada, que até hoje não consegue entender o que aconteceu, vira a terceira dose de vodca sem fazer careta, enquanto Blanca segura seu copo de suco de cranberry com as duas mãos, olhando ao redor com aflição. Afinal de contas, ela está aqui escondida, pois o pai é reverendo de um Templo radical que quase proíbe uma pessoa de respirar. Mas Blanca segue com seu jeitinho de vez ou outra escapar.
— Vamos mesmo ficar as três caladas? Não estamos aqui para tentar nos distrair? — Tiana pergunta.
— Para ser sincera, já especulamos tantas possibilidades para a Chloe ter sumido que me faltam palavras — Blanca responde; em seguida, me olha e dá de ombros. — E tem mais: se o meu pai sonhar que estou aqui, nesse ambiente, ele vai me fazer jejuar por quarenta dias. — Ela ajeita a alça da bolsa no ombro. — A gente nem devia estar aqui.
— Relaxa, amiga — Tiana rebate, batendo o copo vazio no balcão e fazendo sinal para o barman trazer outra dose. — Seu pai está ocupado demais cuidando das ovelhas. E a gente precisava sair dos nossos quartos antes que a tristeza nos engolisse de vez.
— Beber até cair não vai trazer a Chloe de volta, Tiana — Blanca sussurra e, quando eu vejo os seus olhos marejados, é a minha vez de virar duas doses.
— Mas ajuda a não enlouquecer — Tiana corta, enquanto suspira pesado. — E você, Liv? Vai ficar só encarando nós duas?
Eu não queria ter vindo. Só aceitei porque ficar perto delas parecia melhor do que olhar para as paredes de casa.
— E-eu... — Quando penso em interagir, meus olhos me levam para o outro lado da pista.
Mais precisamente para Nicholas Carter. Um dos melhores amigos de Douglas, namorado da Chloe.
Ele está apoiado em uma mesa alta, com a jaqueta aberta sobre uma camisa preta e com um copo de uísque em uma das mãos. Ele carrega aquele ar arrogante de quem sabe exatamente o estrago que causa. Alto, musculoso, com os cabelos escuros caindo sobre a testa e uma postura tão imponente que berra o quanto ele é perigoso a cada movimento. Ele é intocável. Bilionário e está prestes a cursar o último semestre de Medicina. Enfim, ele é o tipo de cara que garotas como eu só admiram à distância.
Até que, de repente, Nick deixa o copo de lado, troca algumas palavras com um cara ao lado e se afasta, sumindo pelo corredor que dá acesso aos banheiros e, de acordo com boatos, às salas restritas do andar superior.
E é nessa hora que eu penso... Chance, eu não tenho nenhuma; mas, se eu esbarrar nele, ele vai se lembrar de mim? Nos conhecemos por causa do Douglas; ele foi simpático, mas só...
E então, completamente movida por uma mistura estúpida de curiosidade e impulso, largo meu copo no balcão e dou o primeiro passo, até sentir a mão de Tiana me puxando.
— Onde você vai? — ela pergunta.
— Já volto. Preciso de ar — minto, enquanto vou me afastando.
À medida que avanço pelo corredor, o barulho da pista diminui e não há ninguém no caminho. Há apenas uma porta no final do corredor entreaberta, de onde escapam conversas abafadas e respirações ofegantes.
Eu sei que deveria voltar, mas acabo me aproximando devagar e empurro a porta com as pontas dos dedos. Imediatamente, a cena me paralisa, pois vejo Nick de costas, prensando uma garota loira contra a parede. As mãos dele estão cravadas na cintura dela, enquanto ela enrosca as pernas ao redor dos quadris dele, com o vestido todo embolado na cintura.
— Meu Deus...
Sem querer, acabo sussurrando, e isso é suficiente para estragar tudo.
A garota arregala os olhos por cima do ombro dele ao notar minha presença. Ela então empurra o peito de Nick com raiva, descendo as pernas no mesmo segundo e puxando a saia para baixo em um movimento desesperado.
— Puta que pariu, Nick! — ela esbraveja, fuzilando a porta com o olhar. — Você nem para trancar a porra da porta? — Ela agarra a bolsa jogada sobre uma poltrona e passa ao meu lado, esbarrando de propósito no meu ombro.
Enquanto Nick solta um suspiro de pura irritação, ele passa as duas mãos pelos cabelos e se vira de frente para mim.
É aí que o choque me paralisa, pois a calça jeans dele está totalmente aberta e arriada na linha do quadril. Para piorar, o pau está exposto, com um preservativo pendurado.
Nick então cruza os braços sobre o peito e dá um passo lento na minha direção, me encarando com aqueles olhos azuis lindos, cheios de deboche:
— Mas que caralho você acha que está fazendo? Virou empata-foda profissional, Olivia?
Sinto que os meus olhos dobram de tamanho. Eu queria que ele se lembrasse de mim, mas não agora.
— E-eu me perdi procurando o banheiro, não precisa falar comigo assim!
— Mentira. Você passou pela porta do banheiro. Confessa: veio tentar substituir a garota que saiu daqui? — Ele balança a cabeça em negativa. — Não, não mesmo. Você não pode, é muito nova, pode se apaixonar.
No desespero, meu olhar escorrega involuntariamente para baixo outra vez, batendo em cheio no pau dele.
— Você é um grosso, Nick.
— É... eu sei muito bem que sou muito grosso.
Puta merda. Ele disse mesmo isso?
— Você é um animal sem modos! Fala sério, isso é coisa que se diga?
— Eu só fui sincero. — Ele sorri e isso me deixa ainda mais irritada.
— Tomara que eu nunca mais precise olhar para a sua cara na minha vida!
E então, sem dizer mais uma única palavra, dou meia-volta e saio em disparada, ouvindo a risada presunçosa dele.
— O que aconteceu? — Blanca é a primeira a notar a minha volta.
— Nada. — Tomo o copo da mão de Tiana e viro de uma só vez. — Nada de importante.
Minto, enquanto fico me perguntando: como eu fui ter coragem para ir atrás dele? Eu juro por Deus. Eu vou evitar cruzar o meu caminho com Nick Carter a qualquer custo.