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CAPÍTULO 4
NICHOLAS CARTER
NO FINAL DA TARDE
Subo e desço as escadas externas que levam à piscina inúmeras vezes, sentindo o suor descendo pelas minhas costas, queimando um pouco de energia acumulada, até que Florence, com seus 4 aninhos de idade, vem correndo na minha direção, sendo vigiada de longe pela babá.
— Nick! Nick, Nick...
Paro imediatamente de me mover e corro em sua direção.
— O que foi, minha princesa?
— Você precisa me acompanhar agora! — Carrego ela no colo. — O papai chegou! — ela diz, quase sem fôlego. — Com uma namorada! E eu ouvi ele dizendo que tem um anúncio para fazer.
Meus pés travam no degrau.
— Que porra é essa agora?
— Nicholas Carter... — ela reclama, pondo as mãos na minha boca. — Não pode xingar. Foi você que me ensinou.
Me encara com os seus lindos olhos azuis idênticos aos meus enquanto eu, em um tom de brincadeira, reviro os olhos. Mas a minha cabeça não para. Meu pai quer fazer um anúncio e isso não deve ser nada bom.
— Ok, vamos lá.
— Me leva voando?
— Levo. — Subo as escadas com ela nos meus ombros e caminho em direção à sala de estar, até que chegamos e eu vejo que o cenário já está todo montado.
David, meu irmão do meio, já está lá, escorado na porta que dá acesso ao jardim, com as mãos enfiadas nos bolsos do jeans, fazendo uma cara de tédio absoluto. Ele me dá um aceno de longe.
No centro da sala, parados diante da escadaria e dos elevadores, estão os dois. Meu pai, Arthur Carter, em um terno impecável, segurando as mãos de uma mulher. Ela é de meia-idade, está usando um vestido simples, comportado, e nenhuma joia chamativa. Enfim, tem um ar comum. Estranhamente simples demais para o padrão do meu pai.
E então, antes que eu consiga falar qualquer coisa, a porta dos fundos se abre e a administradora da casa, a Sra. Higgins, surge acompanhada por uma procissão de funcionários. Copeiros, cozinheiras, arrumadeiras. Todos formam uma fila em absoluto silêncio, mantendo as cabeças baixas, prontos para escutar mais uma ordem do patrão.
É a deixa que ele adora para dar show.
— Pai — minha voz corta o clima. — O que o senhor tem para falar?
Ele ignora a minha pergunta, como sempre faz. Em vez disso, estufa o peito com um sorriso convencido estampado na cara enquanto aperta a mão da mulher ao seu lado.
— Quero que todos conheçam a Valéria Miller — anuncia, projetando a voz para tomar a sala inteira, como se estivesse discursando em um palco. — Ela não é apenas uma visita. Valéria vai se tornar minha esposa. — O choque cai sobre o ambiente. Dá para sentir o impacto no ar. — Nós estamos em um relacionamento mais do que oficial — ele continua, correndo os olhos pelo rosto de cada um, desafiando qualquer pessoa a contestar. — E muito em breve daremos uma festa de noivado digna dos Carter.
Fico plantado no lugar, com Florence presa no meu quadril, enquanto um frio estranho toma conta. Esposa. A palavra fica martelando na minha cabeça. Ele não trouxe apenas outra ficante para o jantar. Trouxe um problema gigante para dentro da família. E algo no jeito dessa mulher simples, de olhos fingindo inocência, me diz que ela vai dar mais trabalho do que todas as anteriores somadas.
Uma risada curta e sem humor escapa da minha boca antes que eu consiga prender. A situação chega a ser ridícula. E, para piorar, Florence se encolhe no meu colo, aproxima o rosto e sussurra bem baixinho no meu ouvido, apavorada:
— Nicholas, eu não quero uma nova mamãe. Toda hora conheço uma que fica me pedindo para chamar de mamãe.
Passo a mão no cabelo dela com cuidado, sentindo a raiva queimar no peito. Será que dessa vez é para valer? A dúvida passa pela minha cabeça. Quando ele apareceu em casa trazendo a Florence, anos atrás, cheguei a pensar que ele finalmente construiria uma família de verdade. Mas que nada. Minha irmã mais nova foi só outro brinquedo trazido ao mundo para depois ser abandonado pela própria mãe, que sumiu no mapa sem olhar para trás. E agora aparece essa tal de Valéria.
É aí que a voz de David quebra o silêncio da sala:
— Seja bem-vinda — ele diz, em um tom neutro, sem parecer acolhedor e nem agressivo, apenas prático. Ele dá de ombros, ainda com as mãos nos bolsos. — Só espero que você entenda as regras desta casa e respeite os meus irmãos.
Valéria então vira o rosto na direção dele, com os olhos um pouco arregalados, mas consegue forçar um sorriso educado.
— Não se preocupe, David. Eu...
— Nada disso, meu amor — meu pai a corta de imediato, puxando-a para mais perto e deixando um beijo possessivo na lateral da cabeça dela. O olhar dele, no entanto, mira em David em tom de desafio. — A casa agora é sua. Faça o que quiser. Esqueça qualquer regra. Você é a nova dona deste lugar.
Para mim fica claro: meu pai não está apenas apresentando uma noiva; está traçando uma divisão clara. Está dando a ela um poder que mulher nenhuma teve aqui dentro desde que a minha mãe partiu. E, pelo jeitinho de sonsa dela, duvido que faça ideia do tamanho da confusão que acabou de assumir. No entanto, fico ali parado, encarando os dois, sentindo o clima pesar. Isso não tem como terminar bem.
Ela em seguida passeia os olhos pelo espaço, avaliando cada canto com aprovação e cálculo, até que a vista dela trava no topo da escadaria.
Lá em cima, emoldurado, está o retrato da minha mãe. Sorrindo, com aquele jeito calmo que sempre desarmava os meus piores humores.
— Carter — ela solta a voz mansa, enquanto aponta para o retrato. — Aquela foto ali é da sua falecida esposa?
Meu pai acompanha o olhar dela e a expressão dele endurece por um segundo antes de voltar a ficar suave.
— Sim, querida. É ela.
Ela vira para ele e passa a mão no peito dele.
— Nós vamos nos casar, meu amor — ela sussurra, mas alto o bastante para todo mundo ouvir. — Não acha que a foto deveria sair dali? — Ela volta a encarar a parede. — Não quero um fantasma no meio da nossa relação.
É a gota d'água. Passo a mão pelo cabelo ainda molhado, sentindo o sangue subir de vez.