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CAPÍTULO 5
NICHOLAS CARTER
— Foda-se o que você quer. — Todo mundo vira para mim e Florence, aparentemente entendendo a minha raiva, nem me repreende. — O retrato da minha mãe vai ficar exatamente onde sempre esteve.
David no mesmo instante se desencosta da porta e se posta ereto.
— Eu concordo com o Nick. A foto da nossa mãe não vai sair dali.
Meu pai fuzila nós dois com o olhar, fazendo com que Florence se encolhe no meu ombro.
— Se a minha futura esposa quiser mexer na decoração, ela vai mexer — ele decreta com autoridade, deixando claro quem dita as regras. — E tratem de ter respeito com ela. Ela é a minha noiva e a mulher responsável por esta família a partir de agora. Qualquer falta de respeito será punida com o rigor necessário.
Ele segura o ombro da Valéria, e ela abre um sorriso vitorioso direcionado direto para mim.
Infeliz.
A guerra está oficialmente declarada. Essa mulher, cheia de falas meticulosamente planejadas e vontades perigosas, acabou de se tornar meu alvo principal. A foto da minha mãe é só o primeiro embate. Sei muito bem que ela vai tentar limpar todo e qualquer rastro da minha mãe desta casa. Mas esse é um limite que eu não vou deixá-la cruzar.
— Fiquem tranquilos, rapazes, não tive a intenção de ofender a memória da mãe de vocês. — Ela sorri como se estivesse lidando com crianças fazendo birra. — Só estou tentando fazer com que o Dr. Carter, o meu amor, consiga seguir em frente.
Solto uma gargalhada alta.
— Ele segue em frente desde quando a minha mãe ainda respirava nesta casa. — Olho fixamente para o meu pai, desafiando o desgraçado a abrir a boca para me desmentir. — Eu era uma criança na época e não me dava conta de nada, mas fizeram o favor de abrir os meus olhos. — Viro para Valéria, sustentando um sorriso tão cínico quanto o dela: — Não se iluda. Antes desse romance de vocês ir por água abaixo, ele vai seguir em frente de novo com outra. Pode ter certeza absoluta disso.
A cara do meu pai fica vermelha de puro ódio. Ele puxa a gravata para o lado, um tique conhecido de quando está perdendo a paciência, tentando reatar a pose.
— Isso já passou dos limites, Nicholas. — O tom dele sobe em ameaça. — E tem mais uma coisa, já que estamos falando sobre quem mora aqui. Em breve, a filha da minha noiva também vai se mudar para cá. Vai ser excelente para a Florence ter uma irmã mais velha por perto.
Como se não bastasse ter que aturar uma cobra, agora o pacote vem em dobro? O pensamento bate na minha cabeça como um aviso. Uma irmã? Essa era a novidade que faltava.
Olho nos olhos dessa tal de Valéria, destilando veneno puro na fala:
— E a filha da senhora por acaso é uma interesseira igual à mãe?
— E como foi mesmo que vocês dois se conheceram? — David completa.
Meu pai puxa as abas do paletó, visivelmente sem graça diante da plateia de funcionários.
— A Valéria era uma paciente da minha clínica. Uma paciente exemplar, preciso destacar.
Uma gargalhada escapa da minha garganta no mesmo instante e eu peço a Florence para tapar os ouvidos com as mãos.
— Ah, então agora está liberado comer paciente? Os códigos de ética da psiquiatria foram atualizados e esqueceram de me mandar o comunicado?
O rosto dele se contorce e ele dá dois passos rápidos na minha direção com o punho fechado, mas David se antecipa com agilidade e se planta no meio, travando o braço do nosso pai com uma pegada firme.
— Chega, pai — David pede.
— Peça desculpas agora mesmo, Nicholas! Já!
Encaro os olhos dele com todo o desprezo que guardo há anos.
— Peça você primeiro — solto, sem recuar. — Já que passou a vida toda pregando regras que nem você conseguiu sustentar. Hipócrita.
David pega Florence dos meus braços e então, sem esperar ele responder, viro as costas e vou direto para a academia; lá está o saco de pancadas, pendurado no centro.
No mesmo instante, pego as bandagens e enrolo nas mãos com pressa. Logo desfiro o primeiro golpe, que acerta em cheio, descarregando a raiva acumulada. Acerto um golpe atrás do outro até os nós dos meus dedos começarem a latejar.
— E Valéria ainda vai arrastar uma filha para dentro desta casa. — Desfiro um gancho forte que faz o saco balançar para trás. — Eu vou transformar a vida da garota que vai chegar em um verdadeiro inferno. — Dou outro soco cruzado de direita. — Se ela tiver um pingo da arrogância da mãe, se ela ousar desrespeitar a memória da minha mãe, eu vou atingir onde mais dói. Vou fazê-la implorar para ir embora daqui antes do fim do mês.
Paro de bater, puxando o ar com força, enquanto minhas mãos latejam e o suor escorre pelo meu rosto. Porra, a guerra está declarada. E a filha da noivinha do meu pai vai ser o meu primeiro alvo.